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DEUS DAS HISTÓRIAS – COMO LOKI SE TORNOU UM DOS MELHORES PERSONAGENS DA MARVEL NOS CINEMAS!

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Nos quadrinhos, a figura mais essencial para uma boa história de super-heróis – além, é óbvio, do próprio super-herói – é um bom vilão. Não é à toa que Marvel e DC Comics, além de outras editoras menores, lançaram personagens tão icônicos e memoráveis que não representam ideais tão heroicos assim. Coringa, Doutor Destino, Magneto, Lex Luthor, Duende Verde… todos esses vilões são personagens extremamente complexos, com uma construção tão cheia de camadas e nuances.

Quando os painéis de HQs são transformados em frames de filmes, a situação muda um pouco. A duração de pouco mais de duas horas, comum na maior parte dos filmes de super-heróis, normalmente é dedicada à construção do herói. O vilão acaba se tornando um segundo plano distante, e dessa forma, é raro termos bons antagonistas realmente memoráveis em adaptações de quadrinhos – embora algumas se destaquem, como o Coringa de O Cavaleiro das Trevas ou as duas versões cronológicas do Magneto no Universo dos X-Men.

Para o Universo Cinematográfico da Marvel, há uma ideia recorrente entre os críticos e o público, de que os vilões não são grandes perigos ou ameaças, e mesmo quando são, acabam sendo mal desenvolvidos. Embora alguns já tenham conseguido fugir à essa regra, como Abutre, Zemo, Ego Soldado Invernal, nenhum outro vilão da Marvel nos cinemas é tão complexo quanto Loki, o eterno rival do Deus do Trovão.

Apresentado pela primeira vez em Thor, de 2011, o Loki de Tom Hiddleston logo se tornou um dos vilões mais populares de filmes de super-heróis no cinema. Claro que o carisma do ator britânico era um dos pontos fortes nessa equação, mas além de tudo isso, o que torna o vilão tão interessante em sua jornada – que, com Thor: Ragnarok já contempla quatro filmes, sem contar as participações indiretas, como Vingadores: Era de Ultron e até mesmo Agentes da S.H.I.E.L.D. – é a construção de seu personagem frente aos deuses de Asgard, aos titãs espaciais e aos Heróis Mais Poderosos da Terra.

Nos quadrinhos, bem como na mitologia nórdica, Loki é chamado de Deus da Trapaça, ou Deus da Mentira. É um título digno para o personagem, que vive um ciclo vicioso de artimanhas e fraudes para tomar o reino de Asgard para si, ou em alguns casos, até mesmo destroçá-lo. Isso o tornou o vilão direto do Thor, uma vez que o drama familiar era de grande interesse de Stan Lee Jack Kirby, até mesmo para dar uma dimensão humana a dois personagens de cunho divino.

Mas a inclusão de Loki não se restringiu ao núcleo nórdico do Universo Marvel. O vilão logo se tornou uma ameaça global, e foi responsável pela formação dos Vingadores. Em outras histórias, ele enfrentaria outros heróis, se aliaria a vilões ainda mais perigosos, mas sempre manteria um esquema de trapaças e mentiras.

Com o passar dos anos, Loki se provou um personagem extremamente difícil de se trabalhar. Por ser um deus, e por representar a maior figura de antagonismo frente ao seu irmão, o vilão acabou caindo em um ciclo vicioso. Todas as histórias pareciam usar Loki da mesma forma, e ele começou a se tornar um vilão deveras desinteressante. Não havia evolução em seu personagem. Não é a toa que na década de 90, o personagem deu uma grande desaparecida dos quadrinhos, vindo a retornar em peso apenas na virada do milênio.

E foi aí que os roteiristas começaram a entender a dinâmica do personagem.

Após o derradeiro Ragnarok vivido por Asgard, simultaneamente à queda dos Vingadores, os personagens asgardianos deram uma sumida de alguns anos no Universo Marvel, até se retorno após a Guerra Civil. Quando Loki renasceu, a Casa das Ideias passou a explorar um de seus pontos mais fortes na mitologia: sua intensa mutabilidade e transformação constante. Cada Loki é um Loki diferente, e não é à toa que, em suas mortes, ele sempre retorna de uma forma distinta. Seja como a Dama da Trapaça ou como um jovem puro e inocente.

A grande realização, no entanto, só veio durante a fase do Agente de Asgard, quando o Deus da Trapaça, aliado aos Jovens Vingadores, usou os poderes de Wiccano para se tornar mais velho. A partir desse momento, o vilão havia percebido que não conseguiria mais fugir de suas obrigações mitológicas. Loki existe para ser um instrumento de destruição e renascimento para Asgard. É justamente sua presença que traz de volta o Ragnarok, e ele sempre será responsável por causar catástrofes, independente do quanto tente evitar sua sina:

“Não posso evitar ser o Loki. Mesmo se eu me matasse, eu apenas ressuscitaria ou seria trazido de volta. E as chances são que, caso aconteça, eu serei ainda pior. Eu terei que interpretar esse papel pelo maior tempo que puder. Eu sou uma história. Apenas preciso ser a melhor história possível.”

Mas isso é assunto das HQs. No cinema, o vilão tem uma trama relativamente diferente, embora todos os caminhos desse rio despejem no mesmo mar. Quando foi apresentado pela primeira vez, Loki era um personagem deveras imaturo. Sua maldade não tinha outra fonte a não ser a inveja desmedida por Thor. Isso fez com que ele tecesse uma rede de maquinações e manipulações para que seu irmão fosse expulso de Asgard, e exilado na Terra. Enquanto isso, ele descobriu sua origem como prole dos Gigantes de Gelo. Excluído entre os aesires, ele ainda assim desejava honrar Odin e se provar um sucessor leal, tentando destruir seu pai verdadeiro, Laufey, e ascendendo ao trono asgardiano.

Porém, seu irmão frustrou seus planos, e ele então se jogou em direção ao – literal – fim do mundo, onde foi finalmente resgatado por Thanos. Os detalhes dessa união ainda não foram revelados, mas sabemos que o Deus da Trapaça se tornou um capataz para o Titã Louco, encabeçando a invasão dos Chitauri na Terra, em busca do Tesseract, o cubo cósmico que, por sua vez, continha a poderosa Joia do Espaço, indispensável para os planos do vilão sideral.

Em Os Vingadores, Loki não passa de uma facilitação narrativa, em termos técnicos. Ele não é uma ameaça tão perigosa, apesar de controlar o Gavião Arqueiro, “matar” Coulson e colocar os heróis contra eles próprios. Contudo, o saldo de sua passagem pela Terra foi mais positivo que negativo. Ele foi o responsável – assim como nos quadrinhos – pela formação dos Vingadores, fazendo com que os maiores campeões da Terra se unissem para vingá-la sempre que necessário.

E então entramos no filme que mais trabalha a jornada do personagem, Thor: O Mundo Sombrio.

Embora (particularmente) o considere o filme mais fraco e dispensável de todo o Universo Cinematográfico da Marvel, a segunda aventura solo do Deus do Trovão tem um ponto positivo estrondoso na participação do vilão. O longa poderia facilmente ser renomeado como Loki: O Mundo Sombrio, e isso cairia como uma luva. Aqui tem início o ponto de virada do personagem, de modo que ele deixa de se tornar apenas um vilão, para se tornar o Deus das Histórias, tal qual nos quadrinhos.

Na trama, vemos ele sendo preso após os eventos de Os Vingadores. Sua natureza maligna faz com que ele, mais uma vez, traia Asgard e acabe perdendo a única pessoa que o amava incondicionalmente: sua mãe adotiva, Frigga. Motivado por vingança, ele se alia a Thor e parte para o confronto contra Malekith Kurse, e acaba sendo “morto” na batalha.

Como não podia deixar de ser, tudo não passava de uma ilusão própria. Ao fim do filme, ele não apenas retorna para Asgard, como também depõe seu pai adotivo e assume seu lugar. Como Odin, ele passa mais de dois anos no trono, conduzindo os Nove Reinos a uma grande decadência, cujos efeitos foram sentidos em Vingadores: Era de Ultron e até mesmo em Agentes da S.H.I.E.L.D., nos episódios em que Lady Sif vem à Terra.

Por fim, chegamos ao mais recente capítulo de sua jornada, em Thor: Ragnarok. Aqui, ele finalmente reencontra seu irmão após longos anos. E a principal diferença da dinâmica dos dois é que, apesar de não ser a pessoa mais brilhante do mundo, o Deus do Trovão já sabe que Loki é refém de sua própria natureza e sempre irá traí-lo. Em determinado ponto da trama, ele chega a comentar: “Você sempre será o Deus da Trapaça, mas podia ser muito mais.” A principal diferença é que, dessa vez, nem mesmo Thor se importa com as mentiras de seu irmão.

Loki então tem uma grande jornada de redenção, por assim dizer.

Ele acaba se unindo ao seu irmão no ato final. Percebendo que, parte da culpa pela invasão de Hela é sua, ele aparece como um salvador nem um pouco altruísta para Asgard, ajudando seu povo a fazer seu êxodo final. E, para cumprir seu papel para a mitologia, ele se torna a peça-chave que faz com que Surtur destrua o Reino Dourado, finalmente provocando o Ragnarok. Mais uma vez, ele aceita sua jornada como o causador principal do Crepúsculo dos Deuses, e ao fazer isso, quebra seu estigma de vilão, transcendendo e tornando-se o Deus das Histórias.

Óbvio, isso não quer dizer que ele acabou de se tornar um herói bonzinho e altruísta. Já sabemos, de detalhes vazados de Vingadores: Guerra Infinita, que ele será responsável por entregar o Tesseract Thanos, e isso não é surpresa alguma. Mais uma vez, o Filho de Laufey cumpre seu papel como uma criatura que anda em círculos. Por mais que ele se arrependa e se redima de seus atos, ele sempre terá uma nova trapaça engatilhada nas mangas, pronta para ser usada ao seu favor.

E de todas as formas, isso é o que o torna um personagem tão fascinante.

É sua natureza cíclica, mas completamente assumida. Ele não é um personagem que cai em repetição e se torna desinteressante. Em vez disso, ele incorpora a natureza cíclica de seu ser, e sabe que sempre precisará ser a melhor versão de si mesmo – ainda que esse “melhor” não signifique “heroico” ou “bom”. Ao longo de todo o Universo Cinematográfico da Marvel, o vilão foi quem teve um dos maiores desenvolvimentos de personagem, passando de uma cria imatura dos Gigantes de Gelo ao – ainda que de forma irônica – salvador e destruidor de Asgard.

Evidentemente que ainda teremos mais importância para o personagem nos futuros filmes da franquia. Ele deve retornar em Guerra Infinita, e não sabemos ao certo se seu encontro com Thanos resultará em sua morte, ou se ele será apenas uma “Mão do Rei” – o que particularmente, seria muito inocente por parte do Titã Louco de aceitar. E mesmo que morra, ele ainda terá um legado infinito no Universo Marvel dos cinemas – isso se não retornar em suas outras versões icônicas, já estabelecidas nas HQs.

SOBRE Bruno Chang